Reprodução FIGC Azzurri e AzzurreClaudio Ranieri, ex-treinador e atual Senior Advisor da Roma, participou nesta semana da coletiva de apresentação como novo Diretor Técnico da Seleção Italiana. Ao longo do encontro com a imprensa, tratou tanto do novo desafio quanto de capítulos recentes de sua carreira.
Questionado sobre se sente algum tipo de revanche pela forma como terminou sua experiência na Roma, Ranieri foi categórico: "Não, é o coroamento de uma carreira, lindíssimo. Não acreditava que isso pudesse acontecer, estava na praia, como vocês podem ver pela minha cara", brincou, arrancando risos. Ele disse estar orgulhoso e ciente de que haverá muito trabalho pela frente, mas destacou que nunca recuou diante das dificuldades ao longo da carreira. Segundo ele, a missão é árdua e duas prioridades o movem: fazer os torcedores italianos se apaixonarem novamente pela Seleção e permitir que as crianças vejam a Itália numa Copa do Mundo - algo que, como lembrou, nem mesmo seu sobrinho de 12 anos jamais presenciou.
Sobre um eventual arrependimento por ter recusado o convite da Seleção no ano passado, justamente diante do desfecho conturbado na Roma, o novo dirigente técnico afirmou que tomou aquela decisão com o coração e que, mesmo tendo dado errado, nunca se arrependeu. Ele tinha um contrato assinado e não poderia rompê-lo, ainda mais com a Roma, time do seu coração, para ao mesmo tempo firmar com a Seleção. Não seria possível conciliar as duas coisas, havia um conflito de interesses enorme, sobretudo dentro da Itália, e por isso, a contragosto, foi obrigado a dizer não.
Perguntado sobre o que pretende levar do último ano na Roma para dentro do Club Italia, Ranieri respondeu que tudo traz experiência. Classificou o período como um ano belíssimo, repleto de situações particulares que lhe serviram muito - justamente por serem distantes de sua realidade anterior, e por isso mais formativas.
Com a Copa do Mundo de 2030 como horizonte, foi indagado sobre o quanto será necessário reorganizar o futebol italiano. Ranieri admitiu ser difícil precisar, mas garantiu que há trabalho a ser feito: enquanto Mancini cuidará da parte visível, de campo, a ele caberá o que não se vê. Contou que, no início de junho, esteve em Cagliari, numa pequena conferência, onde um profissional do meio relatou que as famílias gastam demais para colocar os filhos nas escolinhas de futebol - algo que, na visão de Ranieri, não pode continuar acontecendo. Ele afirmou querer entender profundamente o funcionamento de tudo antes de agir, observando que hoje as crianças são atraídas por videogames e outros esportes, e que é preciso resgatá-las para o futebol, inclusive reduzindo custos. Destacou ainda que as seleções de base italianas vêm trabalhando bem, mas que o salto final para o profissional é o mais difícil, sendo necessário entender como fazer com que os clubes italianos permitam ao selecionador da Seleção escolher livremente seus jogadores.
Sobre o que pode ser feito para que jogadores como Baldanzi e Venturino ganhem mais espaço nas equipes principais, Ranieri reconheceu que muitos atletas merecem essa oportunidade e disse quere entender melhor cada situação. Lembrou que, no passado, havia um limite de até três estrangeiros por elenco, cenário que mudou radicalmente: hoje as equipes estão cheias de jogadores estrangeiros, o que, para ele, não é positivo. Ainda assim, ponderou ser necessário avaliar todas as variáveis e tentar viabilizar ao selecionador Mancini a chance de escolher. Disse compreender que, em qualquer nível, as equipes precisam vencer, mas espera que todas as partes envolvidas possam permitir que mais jogadores italianos atuem.
Ao ser perguntado se já teve acesso ao programa de Paolo Maldini voltado ao setor de base, Ranieri afirmou ainda não o ter visto, já que Malagò havia lhe telefonado apenas na segunda à noite, mas garantiu que é seu dever conhecer tudo de bom que existir no projeto. Recordou que Maldini já havia dito que o processo levaria dez anos, sendo necessário investir pesado na tática individual desde os 10 ou 12 anos de idade. Para Ranieri, a diferença entre a Itália e as demais seleções está no fato de os italianos serem bons taticamente, como equipe, enquanto outros países se destacam tecnicamente, com uma base técnica individual superior. Ele lembrou que, antigamente, havia menos escolinhas de futebol, mas se jogava mais nas igrejas e praças, driblava-se mais; hoje, ao contrário, o time é competente no toque rápido em um ou dois toques, mas é preciso voltar a deixar o garoto se expressar livremente até os 14 ou 15 anos, para só então enquadrá-lo taticamente. Garantiu não ter medo de dar continuidade ao que já funciona bem.
Sobre a reação de sua esposa Rosanna à nova função, Ranieri brincou dizendo que, finalmente, não precisará fazer uma mudança de casa, o que a deixará muito feliz.
Questionado se daria algum conselho a Mancini, respondeu que foi treinador até dois anos atrás e que, se Roberto quiser lhe perguntar algo, dará sua opinião; caso contrário, seguirá cuidando de suas próprias tarefas, que são muitas. Sobre a necessidade de reconquistar também o coração dos próprios jogadores da Seleção, Ranieri afirmou acreditar que os atletas italianos já possuem um notável senso de pertencimento, que deve aumentar ainda mais com o estilo de jogo de Mancini. Segundo ele, os jogadores já são apaixonados e sofrem mais do que ninguém, pois sabem o quanto dói perder.
Diante da expectativa por reformas estruturais, Ranieri disse que pedirá ajuda a todos os setores, pois acredita que o futuro da Itália interessa a todo mundo. Destacou que não se pode lembrar de ser italiano apenas quando o time perde, e que é bonito vencer e fazer isso em conjunto. Afirmou que pedirá apoio para que Mancini possa contar com jogadores válidos, já que está em jogo a própria identidade italiana no futebol, e que não é possível continuar do jeito que está.
Sobre a ideia do presidente Malagò de tratar o Club Italia como um clube de Série A e sobre como serão as relações com Mancini, Ranieri afirmou que, se Roberto sentir necessidade de recorrer a ele, será sempre franco e leal. Lembrou que, como treinador, conversava com seus próprios auxiliares, e que Mancini tem os seus. Caso o técnico queira ouvir sua opinião, ele a dará com prazer; do contrário, tudo bem, já que Mancini é um profissional maduro e experiente.
Durante a coletiva, o presidente Giovanni Malagò também fez uma revelação: contou ter ligado para Ranieri na segunda-feira à noite, por volta das 20h ou 20h30, e ter perguntado como ele enxergava Mancini como treinador. A resposta de Ranieri, segundo Malagò, foi simples: "Muito bem". O dirigente completou dizendo que, além de uma carreira que fala por si só, Claudio possui qualidades humanas, pessoais e de estilo que são indispensáveis diante do contexto recente vivido pelo futebol italiano.
Mancini fala em vencer e confia em jovens talentos
Também presente, o novo comandante técnico da Seleção, Roberto Mancini, tomou a palavra para esclarecer, de imediato, o episódio de três anos atrás. Segundo ele, houve um problema de comunicação entre ele e o então presidente Gravina; caso tivessem conversado antes e de forma mais aberta, provavelmente teriam resolvido a situação. Mancini afirmou ter ficado muito magoado à época, já que a camisa da Seleção sempre foi extremamente importante para ele - como perder o amor de sua vida, segundo suas palavras, algo que significava reconhecer um erro e apagar tudo o que havia sido construído antes. Para ele, o destino lhe deu uma nova oportunidade, graças ao presidente Malagò, e agora está de volta para recolocar a Itália onde ela merece estar.
Ao ser questionado sobre seu objetivo após o episódio de 2023, Mancini disse que, independentemente do ocorrido, a meta continua sendo vencer e jogar bem. Afirmou estar convencido de que existem bons jogadores, sobretudo jovens, e recordou a conquista da Eurocopa, período em que a Itália ficou quatro anos sem perder. Depois veio a eliminação, e ele lembrou que, com ao menos um dos dois pênaltis entre Basel e Roma, a classificação poderia ter sido garantida.
Sobre se já se acertou com Gravina, respondeu que já fez isso no passado, assumindo que a responsabilidade foi dele; se tivessem se falado antes, talvez tivessem esclarecido tudo. Questionado se hoje há mais polêmicas do que em seu primeiro mandato e se existem jovens válidos, Mancini afirmou que as polêmicas sempre existiram para um técnico da Seleção, e que as atuais também vão passar. Como exemplo, citou Zaniolo, convocado quando sequer havia estreado na Série B, muito menos na Série A, e que sofreu bastante na primeira convocação; dois meses depois, no entanto, já era outro jogador. Para Mancini, esse é justamente o objetivo: identificar os melhores talentos e fazê-los crescer.
Sobre por quanto tempo espera permanecer no cargo e se as categorias de base deveriam adotar o mesmo estilo de jogo, Mancini afirmou que quer conquistar um troféu importante, talvez até dois, e permanecer além da duração do próprio contrato, se possível. Defendeu que as seleções de base, a partir do sub-18, deveriam jogar sempre no mesmo esquema tático, já que, na sua visão, aos 18 anos já é possível lançar bons jogadores, sendo importante ter uma identidade tática comum.
Questionado se hoje existem menos "pilares seguros" do que na experiência anterior, respondeu que Bonucci e Chiellini foram fundamentais no passado, mas que Verratti e Jorginho nunca haviam jogado juntos por serem considerados, à época, jovens e técnicos demais. Segundo ele, existem hoje jovens bons e tecnicamente qualificados, e a equipe buscará jogadores experientes para servir de referência a eles.
Sobre se essa equipe ainda pode fazê-lo sonhar com um título mundial, Mancini lembrou que, quando assumiu, a maioria dos jornalistas considerava a Itália a sétima ou oitava força da Europa. Como o time não perdeu desde então, isso mostra que algo de bom foi feito. Ele acredita que, se a Itália se classificar para o Mundial, como deveria, passará a ser uma das equipes a serem batidas, mesmo chegando como não favorita. O objetivo, segundo ele, é formar rapidamente uma equipe competitiva para a Nations League, visando a classificação para a Eurocopa e, na sequência, para o Mundial.
Sobre a questão dos estrangeiros no futebol italiano, Mancini avaliou que o percentual atual é parecido com o de cinco anos atrás, sendo necessário aproveitar melhor as categorias de base e colocar jovens para jogar ao lado de veteranos, acelerando o desenvolvimento. Destacou também a importância de italianos atuarem no exterior.
Sobre se retomará, taticamente, o modelo de 2021, e se a última Copa do Mundo trouxe algum aprendizado, Mancini disse que assistir ao torneio e observar certas equipes sempre traz insights táticos. Afirmou que vai avaliar com o grupo por onde recomeçar, mas que a base será aquela, por acreditar que pode oferecer um time com espírito ofensivo, sempre propositivo, buscando vencer todas as partidas.
Questionado sobre a importância da Nations League na construção da nova Seleção, destacou que os quatro grupos da elite são formados por grandes seleções, o que tornará os jogos decisivos para medir a força atual do time e identificar pontos a melhorar, num grupo difícil tanto para a Itália quanto para os adversários.
Voltando ao tema do centroavante, questionado se hoje se sente mais coberto nessa posição, Mancini recordou que Immobile foi um grande artilheiro, mas que os jogadores atuais são mais jovens e ainda podem evoluir. Lembrou ter sido ele quem promoveu a estreia de Kean, jogador que conhece bem, e disse não acreditar que o ataque italiano, somando pontas e centroavantes, esteja em situação ruim.
Sobre ser o último técnico a convocar um "estágio" de observação e se pretende repetir a experiência, Mancini afirmou que qualquer técnico da Seleção enfrenta dificuldades semelhantes. Lembrou que, na ocasião, conseguiu reunir apenas jogadores que hoje, em sua maioria, integram a Sub-21, já que na época não estavam atuando regularmente, e disse não saber se será possível repetir o movimento.
Perguntado sobre o que pede ao mundo do futebol e como espera ser recebido, respondeu que seu objetivo é fazer a Seleção decolar rapidamente e buscar vitórias, esperando contar com o maior número possível de italianos em campo, ampliando as opções e acelerando o desenvolvimento dos atletas.
Por fim, questionado sobre uma declaração feita três anos e meio atrás, quando afirmou existirem de quatro a cinco jogadores com potencial parecido ao de Bellingham, e se esse grupo permanece o mesmo, Mancini comentou que Bellingham seguiu evoluindo após se transferir ao Real Madrid, e que espera que os italianos possam trilhar um caminho semelhante. Disse ainda que, caso surja algum jogador talentoso com passaporte italiano atuando em outra seleção, a comissão técnica também irá avaliá-lo.
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