Texto por Colaborador: Rother 06/03/2026 - 01:00

Por algumas horas, Gian Piero Gasperini trocou a beira do campo por uma sala de aula. O técnico da Roma ministrou uma palestra intitulada "Além da medicina – A coragem de errar" na Universidade Católica do Sagrado Coração. Ao entrar no Aula Gemelli, ele já deu o tom com um animado "Essa a gente vence?!", arrancando aplausos dos estudantes antes mesmo de abrir a boca para falar de verdade. O que se seguiu foi uma conversa franca sobre erros, fracasso, coragem e paixão — com o futebol como pano de fundo, mas com a vida como tema central.

Gasperini começou situando o terreno comum entre o universo do esporte e o dos estudantes. Disse que medos, sonhos, motivações e pressão por resultados são experiências que atravessam qualquer área — e que veio justamente para compartilhar o que aprendeu dentro do futebol com quem está começando a sua jornada fora dele.

O tema central da palestra, o erro, foi tratado por Gasperini com uma naturalidade que surpreende quem está acostumado a ver treinadores evitarem o assunto. Para ele, o futebol é, por natureza, um ambiente que ensina a conviver com falhas — e isso é uma vantagem, não uma fraqueza. "No nosso esporte a perfeição não existe, e isso nos treina para errar. Nos fortalecemos para superar o erro e seguir em frente", disse. Segundo o técnico, a diferença está no que se faz depois: o erro não pode paralisar, precisa virar aprendizado. No futebol, explicou, erra-se no treino, erra-se na partida — e a convivência com isso é tão constante que se torna quase natural.

Outro ponto que Gasperini desenvolveu com ênfase foi o peso do julgamento externo, especialmente o da mídia. Ele reconhece que um único erro pode apagar uma atuação inteira aos olhos de quem assiste de fora — e alerta que perseguir a aprovação alheia é um caminho sem saída. "Mais do que olhar para os outros, precisamos olhar para nós mesmos", afirmou. O julgamento externo, na visão dele, é desequilibrado por natureza: às vezes cruel demais, às vezes generoso demais. Trabalhar sobre si mesmo, com honestidade, é o que realmente importa.

Para ilustrar como as derrotas podem ser mais formativas do que as vitórias, Gasperini recorreu ao recente empate da Roma com a Juventus. Ele adota como mantra uma frase que tomou emprestada de outros: "Nunca perdemos, ou vencemos ou aprendemos." E foi além: "Se tivéssemos vencido contra a Juventus, estaríamos mais felizes, mas não teríamos visto nossos erros." Na sua visão, o fracasso não está em perder uma partida ou uma prova — está em errar de atitude. Aos seus jogadores, pede sempre o mesmo: que abandonem a cultura das desculpas e trabalhem sobre si mesmos com coragem e confiança.

Gasperini também falou sobre a importância de fazer aquilo que se ama. Defendeu que objetivos pessoais precisam ser construídos para si mesmo, não para o olhar dos outros — e que encontrar algo que estimule é o que torna mais fácil enfrentar qualquer adversário. Distinguiu ainda dois tipos de erro: os técnicos, que se corrigem com treino, e os de comportamento, que considera inaceitáveis.

Quando o assunto chegou aos bastidores do vestiário, o treinador foi transparente sobre como lida com os altos e baixos emocionais dos jogadores. Disse que até os maiores goleadores atravessam fases difíceis, e que o ambiente ao redor — a qualidade humana do grupo — é o que faz a diferença nesses momentos. Elogiou os jovens com convicção: "Minha convicção é que os jovens nisso são muito fortes, absolutamente fortes, e fazem mais equipe do que nós, adultos."

Sobre o que significa carregar a camisa da Roma, Gasperini foi direto: a pressão que vem com o clube não pode gerar medo — tem que gerar coragem. "Estar na Roma hoje precisa ser algo que te dá grande confiança, que te dá grande coragem. Não podemos nos permitir ter medo", afirmou. Perder partidas faz parte, mas perder as características que definem o grupo, nunca.

Para encerrar, Gasperini revelou o que o motivou a aceitar o desafio de comandar a Roma. Disse que ainda tinha vontade de se colocar à prova — e que escolheu exatamente a praça que todos apontavam como a mais difícil. "Vou para Roma porque se você se der bem em Roma, a recompensa é maior. O nível de risco — posso pensar diferente —, mas quão alto era o risco? O mais alto." A motivação, explicou, era simples e ao mesmo tempo profunda: querer se sair bem justamente onde é mais difícil. "É um desafio, você vive de desafios, e quando sair desse desafio terei a certeza de ter dado tudo de mim. E para mim, isso vale mais do que tudo."

A palestra terminou com uma ovação. Gasperini saiu do Aula Gemelli da mesma forma que entrou — com a convicção de quem sabe exatamente onde está e por quê escolheu estar lá.

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